terça-feira, 4 de setembro de 2012

Alô!


Em meio a tanta correria do dia a dia, a tantos telefonemas, a tantos chamados, surgiu você na minha vida. Foi chegando de mansinho, conquistando com sucessivos “alôs”, deixando rastros e dicas. Chegou arrasando. Chegou para ficar. Chegou chegando!

Quem ouve nossa história pode chegar a imaginar que é invenção, mas ninguém imagina mesmo que o que começou com uma simples pretensão e ousadia se tornou algo sólido e cheio de sentimento.

Um “alô” se transformou numa família. Uma paquera se tornou amor. O amor por si só não segura a barra do dia a dia, da convivência, dos maneirismos diários, das oscilações a que todo ser humano está sujeito e das falhas. Mas o amor aliado à cumplicidade, ao companheirismo, à amizade e ao bem-querer, sim.

Não é nenhum conto de fadas. Ninguém aqui é perfeito. Mas o amor tudo supera. A cumplicidade, o companheirismo e a amizade ajudam a sustentar e não deixar romper nenhum laço sólido construído a partir daquele “alô”.

Alô, você, que está ao meu lado, que me ajuda a construir uma família cheia de amor, obrigada pela insistência inicial em fazer parte da minha vida. Obrigada por me presentear todos os dias com seus olhos brilhantes e seu sorriso radiante (e um pouquinho da sua chatice, também. Afinal, ninguém é perfeito!).
Obrigada por ser humana, assumir suas falhas e, ainda mais, tentar superá-las. Obrigada por me mostrar humana, e não uma mulher-maravilha, fazendo-me enxergar minhas falhas e ajudando-me a superá-las.

Eu agradeço todos os dias da minha vida por ter alguém com quem eu possa compartilhar e aproveitar momentos felizes. Agradeço todos os dias por poder contar com esse alguém para segurar as pontas e a barra nos momentos difíceis, além de todos aqueles bons momentos.

Juntas somos uma só: mais forte, mais guerreira, mais humana. Juntas, somos amor, compreensão, carinho, amizade, companheirismo e cumplicidade. E assim, lado a lado, ninguém faz sombra para ninguém. Melhor assim, né? Bem melhor uma conquista conjunta do que a doce ilusão de uma vida perfeita oferecida mundo afora. Bem melhor contar com você ao meu lado, com todos os prós e os poucos contras, do que seguir a vida sem o doce brilho da sua presença.

Ei, alô. Amo você e sou feliz ao seu lado!

Manaus, 04 de setembro de 2012. Terça-feira. Às 22h44.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Hoje bateu a saudade. Então, lá vai o texto que nunca publiquei antes e que escrevi para ler na missa de sétimo dia (mas o padre não deixou!).

Saudade dói. Aperta o peito. Mas não há jeito. Vou vivendo...

Nosso herói é imortal. Embora com fraquezas e defeitos, o seu exemplo é imortal. Nagib Bader não passou pela vida à toa. Amou e foi amado. Apaixonou-se. Casou-se. Teve filhos, que lhe deram netos. E tudo o que ele construiu não está sobre fundações de concreto. Está aqui, agora, dando continuidade a tudo o que ele ensinou. Ensinamentos dos quais nos orgulhamos. Esse homem alto, forte, de voz firme, de gesto carinhoso, esse homem nos ensinou que a honestidade vale mais que dinheiro. Ensinou que caráter e dignidade ninguém pode nos tirar ou comprar. Ensinou que ser correto é amar o nosso próximo. Ensinou que ajudar não deve ser só um ato de bondade, mas de humanidade. Esse homem, com suas velhas histórias, ensinou que nessa vida estamos só de passagem e que tudo o que aqui fizermos será contabilizado. Por conta disso, ele mesmo dizia: não faça mal a ninguém. Conselho muito bem ouvido e aprendido por todos nós.
Nosso herói era austero, brincalhão, galanteador, ativo, cheio de saúde. E quem diria? Esse mesmo homem nos deixou assim, de uma hora para outra, sem que pudéssemos supor que ele já havia cumprido sua missão aqui. Olhando para trás, conseguimos compreender o quanto ele construiu. Ele atravessou, com as roupas nas mãos, um rio para pedir a mão da amada em casamento. E olha só no que isso tudo deu. Mais de 60 anos de união. Ele batalhou por cada pedaço de pão para que os filhos tivessem o que comer. Atravessou a floresta, caçou animais, cortou seringueiras, tirou leite de pedra para que estivéssemos aqui hoje celebrando seus quase 86 anos de ensinamentos. Sim, porque não perdemos o marido, o pai, o avô, o bisavô, o amigo. Ganhamos um anjo, que deixou seu exemplo para nós.
Família. Esse homem significa família. Todos os domingos, era certa a reunião de todos. Nem sempre na mais perfeita harmonia, mas estávamos ali, juntos. E quando ele começava a contar a histórias do seringal, dos compadres e comadres, da vivência que até hoje não conseguimos visualizar de como deve ter sido, os olhos dele brilhavam.
Ao contrário do que muitos podem imaginar de uma família de origem árabe, nosso herói era próximo, presente, carinhoso e de gestos muito simples. Simplicidade essa que ele não estampava, ele apenas demonstrava com atitudes cotidianas. Aprendemos com ele que o melhor lugar para uma boa conversa é a cozinha da casa. Aprendemos também a não fechar as portas para ninguém. Era assim que as mais diferentes pessoas chegavam à sua casa, sem bater, sem pedir licença, apenas entrando até a cozinha.
Falo de Nagib Bader como herói não por ele ser inatingível fisicamente, mas por ele significar um exemplo tão forte de vida. Para muitos, ele era o seu Naná, para outros o seu Nagib, o Pai, o Amigo... Para mim, ele era o meu avô querido. Aquele a quem podia tirar dúvidas, conversar, abraçar, falar sobre os mais diversos assuntos e ouvir os mais diversos conselhos.
Um homem cujos valores vão além do acúmulo de riquezas materiais. A educação dos filhos sempre rígida. O convívio com os netos sempre cheio de histórias e alegrias. Era duro quando tinha que ser. Passava sermão, brigava. Ao mesmo tempo, era atencioso, carinhoso e sincero. Mudar a opinião daquele homem era quase impossível. Defendia sua família até as últimas conseqüências. Tudo o que ele construiu ao longo de sua vida está aqui, reunido. Somos todos orgulho dele, tenho certeza. E ele não seria ninguém sem a sua fortaleza, minha avó. Sabemos da importância de um na vida do outro. Não conseguíamos enxergar um sem ver o outro próximo. Nagib e Alzira. Agora, vó, nos restam a força, o amor e a união para continuarmos a vida.
O que sinto agora, e creio que deve ser um pouco do que cada um sente, é a saudade. Dá um vazio no peito chegar àquela casa e não encontrá-lo, não dizer: a benção, vô. E ouvir a resposta: Deus te abençoe, minha filha. Seguido de um abraço, um beijo e aquele calor humano. Ficam as lembranças dele, do homem, do herói, do contador de histórias, do educador, do amigo, marido, pai, avô e bisavô... Do ser humano. Fica o amor que sentimos durante a convivência que tivemos com ele. Fica o exemplo de quem viveu sem ter medo do amanhã, de quem aproveitou cada segundo dessa vida e deixou um legado invisível aos olhos das estatísticas. Deixou sua história, seus ensinamentos, sua devoção pela família. Vô, o senhor continua vivo no meu coração e assim será para sempre, até o dia do nosso reencontro.

Manaus, 22 de setembro de 2007. Sábado. 3h25.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O que você quer ser quando crescer?

Ouvia sempre essa pergunta quando era criança… Sempre foi difícil respondê-la e era engraçado me imaginar 20 anos mais velha, sendo que o dia seguinte sempre foi uma incógnita. Curioso pensar que, hoje, dia 4 de fevereiro, volto meus olhos pra trás e visualizo que, não importa minhas expectativas, o futuro é sempre uma surpresa. Pode nem ser a curto prazo, mas a longo prazo, com certeza.

É engraçado, também, como não notamos nem quando o corpo e a mente tomam formas de adulto. Quando nos damos conta, pluft, já era. Somos adultos e querendo voltar a sermos crianças! Afinal, quem nunca parou e se questionou o porquê de, na infância e adolescência, a vontade explosiva de querer crescer, de pular as fases, de chegar aos 30?… Época boa. Não havia contas, problemas, a vida era mais fácil…

Aos 10 anos, nunca, nunca mesmo, imaginei que fosse chegar aonde estou agora… aos 30, jornalista, trabalhando em redação, com amor (es) (im)possível(is), com amigos de longa e curta data, com família unida, com sobrinhas apaixonantes, com contas, dívidas, carro, casa e mais um monte de coisa pra dar conta. Eu queria, no máximo, fazer 18 para tirar a carteira de habilitação. Ainda falta muito chão, eu sei (e espero!).

Aos 20, já estudando jornalismo, eu queria mesmo era chegar aos 30 com ideais intactos, com ingenuidade, amor, carinho e sinceridade pra dar. Não imaginei que, aos 30, estaria pensando em tirar férias porque precisava descansar, ou que teria que controlar meu tempo pra fazer tudo o que era possível, dormir, trabalhar, almoçar, ir a bancos, visitar família… não imaginava nem que teria telefone celular algum dia. Imagine dois, três!E, mesmo assim, quando alguma coisa acontece, fico procurando o adulto mais próximo para amparar a criança que há dentro de mim. Porque nem importa quantos anos eu tenha vivido, mas a certeza de que quem eu sou nunca vai morrer. Essa criança aqui reside em mim. Sem projeções e expectativas. Que venha o amanhã, porque eu quero é viver. Um dia de cada vez, mas quero!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Livro

Quando a sensibilidade está aguçada, qualquer coisa mexe com a gente, né? Nunca tinha chorado ao ler um livro. No máximo, tinha ficado tocada, sensibilizada com alguma história (e olha que são muitas histórias todos os dias, o dia todo). Mas... essa madrugada foi diferente. Devorei um livro e me debulhei (nunca tinha usado esse verbo até hoje!) em lágrimas. Sofríveis. Iguais à história do personagem central. A cada lágrima, uma lasca da minha pele era arrancada e doía demais, tudo. Algumas coisas realmente nos despem de tal maneira, que só compreendemos quando o turbilhão de sensações passa. Comecei a ler aquele livro despretensiosamente. E foi despretensiosamente que me vi soluçando, virando as páginas, vendo as horas passarem, tentando entender toda a angústia daquela história e, ao mesmo tempo, expondo toda a angústia que me consumia há dias. Me deixei levar por aquela tristeza sem fim e chorei como há muito tempo eu não chorava. Um choro sincero, angustiado, doído. É como me sinto. Mas também é necessário para continuar, virar a página e seguir a vida. E a única coisa que desejo, no meio dessa confusão toda, é que passe rápido. Porque a vida não vai me esperar para aproveitá-la. E, apesar de clichês, repito mentalmente todos os dias frases muito proferidas nos últimos dias. ‘Gostoso é viver’, ‘A vida é agora!’, ‘Felicidade se acha em horinhas de descuido’. Já que a alma está lavada, a tristeza está findando e a vida prosseguindo, nada melhor do que sorrir e aproveitar as horinhas de descuido.

Ah, o livro? O caçador de pipas.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Um ano

Há exatamente um ano, recebi seu último beijo. Na testa, no momento em que adormecia após ter esvaído minhas forças durante aquele dia. Um dia triste. Custei a acreditar que tinha que me despedir. Aquela última imagem, fria, imóvel e quieta, não se assemelhava em nada à figura alegre, determinada, austera e carinhosa que eu tanto admiro até hoje.

Após enfrentar médicos, assinar atestados, me deparar com um corpo frio e vazio de alma, providenciar funeral e acabar a tarde num cemitério, entre choro intenso e uma despedida forçada, o alento daquele beijo me fez adormecer.

Um ano depois, estou aqui, vô, numa maratona de trabalho. Mesmo com a correria do dia-a-dia, meus pensamentos ficaram cheios de lembranças boas da nossa convivência.

Saudade.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Parece, mas não é

Não sei se vocês lembram de um antigo comercial. “Denorex: Parece, mas não é”. Era um xampu que prometia eliminar de uma vez por toda a caspa da cabeleira da rapaziada, mulherada, enfim, de todos. É só um exemplo (da década de 90, tudo bem, mas é né?). Mas mostra bem como o marketing está em tudo e todos. As pessoas estão sempre querendo vender seus “rótulos”, como se estivessem expostos em prateleira de supermercado. E o que parece melhor, na vida real e no senso comum, acaba se tornando melhor. Porque, definitivamente, muitos levam em consideração que só terão uma vida plena com a aceitação e elogios do mundo inteiro.

Parece. E se parece, é né?! Acontece que quando o “rótulo” nos permite conhecê-lo um pouco mais, acabamos descobrindo um produto pouco ou muito diferente do que estava sendo “vendido” na prateleira. A aparência e a embalagem contam muito para atrair olhares, fãs, adeptos e aceitação. Por trás disso, nem tudo são flores. Marketing, meu querido. Todos vivemos dele. E para sustentar isso, basta que vocês (ou nós) prestem atenção nos discursos das pessoas. Só um minuto de atenção, por favor, ao discurso alheio.

“Eu fiz, eu sou, eu tenho, eu vou, eu posso...” Olha o marketing da vida aí. Para que e por que tudo isso? O mundo é cão, diriam algumas pessoas. É uma luta constante, uma briga de gladiadores todos os dias. Vence quem se apresenta melhor (e quem se apresenta melhor, muitas vezes é considerado o melhor para o senso comum, ou a maioria). A vaidade é a tendência do novo século, diriam outras. É só perceber o quanto cirurgia plástica deixou de ser tabu e virou algo tão natural quanto escovar os dentes. É o preço que se paga para se mostrar a melhor embalagem.

O fato é que a humanidade vive uma superficialidade incrível, em que muitos se apresentam da forma mais conveniente e tantos outros aceitam só rótulos e embalagens. E nós nos acostumamos com isso. É natural. Não!!! Natural, coisa nenhuma!

Eu gosto de gente que é gente e não produto!!! Não existe produto perfeito, muito menos ser humano. Aliás, aprender a conhecer a humanidade de cada ser é um desafio para os seres da atualidade. É mais fácil ser amigo de um cachorro (que não fala, não abraça e expressa sentimentos com lambidas), do que ter alguém com quem possa ter uma conversa sincera sem se sentir numa competição de quem é o melhor. Nada contra cachorros. Mas quando trataremos o “alguém” ao nosso lado como alguém de verdade e não um produto do marketing da vida?

Sinceramente, não quero viver na superfície. Quero conhecer e aprender mais, nem que precise mergulhar na profundidade das pessoas e enxergar coisas que estão guardadas a sete chaves, a essência de fato. É muito melhor, não é não? Dá mais trabalho. Mas, e quem disse que coisas fáceis são valorizadas?

Estou passando direto pelas prateleiras. “Dá licença, moço. Para quê servem esses produtos aqui? Quero conhecer a essência deles”.

Manaus/AM, 07/08/08.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Pôr-do-sol

Tem alguma coisa a mais na beleza do pôr-do-sol que me encanta. Não, não são as cores refletidas do sol na imensidão do rio, nem sua sombra por entre nuvens, muito menos a intensidade de calor do astro rei. O encanto é porque, justamente, o sol faz morada todos os fins de tarde ali pertinho do meu lar. É como um alento quando estou longe da cidade da qual criei raízes.

Quando o sol aponta o horizonte, se encaminhando para ‘morrer’ no oeste, é na minha casa que penso. “É para lá que fica a minha casa!”. Analogia boba e simples, mas acalenta o coração cheio de saudade do lar. O encanto com o fenômeno diário da natureza não é por sua beleza infinita, tem um porquê.

Não adianta, em nenhum outro lugar o pôr-do-sol se mostra mais bonito do que ali, no meu lar. Mesmo que de longe, vejo o sol se despedir do dia todo fim de tarde. É momento de contemplação, silêncio e paz. Longe de casa, então, esse momento é mais intenso. O sorriso se estampa em meu rosto quando vejo o sol dormindo no horizonte. É como se visualizasse o caminho para casa.

Toda dia, penso nessa magia. A noite chegando, mais um dia vivido, mais uma vez o sol se pondo ao horizonte. Amanhã sempre tem mais, mas é mágico. O dia se vai todos os dias. Com ele, um monte de momentos vividos. E por mais que hoje tenha sido um dia difícil, amanhã tem mais. Com surpresas inevitáveis, com cada minuto inédito, com experiências que serão adquiridas, com mais um pôr-do-sol.

O bom disso tudo é que ele, o sol, de um jeito ou de outro, no seu tempo marcado, me mostra o caminho de volta. Lá no horizonte, visualizo um local aconchegante o qual chamo de lar. Seja ele qual for. É para lá o rumo. E, apesar de muitas vezes tomar a direção contrária, todos os dias ele mostra o caminho. Assim, me sinto segura onde eu estiver. Segurança de quem sabe o caminho de volta, de quem, se um dia se sentir perdida, sabe para onde voltar.

É só seguir aquele raio de luz deitando no horizonte.

Manaus/AM, 08/07/08.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sorte

Das duas, uma: ou todos os meus karmas foram pagos em um único dia (no caso, hoje), ou deveria ter jogado na mega-sena, dadas todas as circunstâncias improváveis e, praticamente, impossíveis de acontecerem no mesmo dia (no caso, hoje também). É... a opção do jogo na mega-sena é de longe a melhor idéia.

Desde que nasci, tenho que conviver com uma otite que me persegue. Ora num ouvido, ora no outro. Ela não sabe bem qual dos dois prefere, então, alterna. É uma otite temperamental. Há alguns anos ela não dava o ar da graça. Eis que, hoje, ela resolveu dizer que existe. Junto com ela, faringite. Até então, tudo bem. Dá para levar. Duas dores incômodas, mas que se não der muita importância, acaba ficando em segundo plano.

Ruim mesmo é quando outras coisas começam a somar. Sabe como é, quando uma coisa começa a dar errado, é muito mais fácil que outras coisas acompanhem e dêem errado também. Se Murphy fosse vivo, faria eu mesma questão de enterrá-lo vivo. Como é que alguém inventa tantas leis pessimistas? Enfim, voltando à minha sorte atual...

A pessoa aqui vai trabalhar ainda com resquícios de cansaço do trabalho de dias anteriores. Aquele descanso incompleto, se é que me entendem. Com otite, então, disposição zero vírgula um. Some-se a isso um pequeno desentendimento com o namorado e 12 horas de trabalho direto, com direito a almoço super atrasado, nos 15 minutos de intervalo entre uma obrigação e outra.

Após metade do dia trabalhando, garganta e ouvido reclamando, cansaço triplicado, resolvi que devia procurar um pronto-socorro. Afinal, eu merecia dormir sem dor. Ingenuidade minha. Às duas da manhã lá estava eu respondendo ao questionário da atendente do PS. – “O que você tem?” – “Garganta e ouvido doem, moça”. – “Primeira sala à esquerda, por favor. É só aguardar”.

Meia hora depois, nada de ser atendida. – “Ô enfermeira, cadê minha ficha?” – “Não tem ficha nenhuma com seu nome aqui”. Eu mereço, né? Resolvido o problema da ficha e após enfermeira e médica pedirem desculpas, era a vez de estender o braço para a aplicação das injeções. Tudo bem que tenho muitos pecados para me redimir, que não devo ser a melhor filha do mundo e que tenho meus defeitos, mas daí a ter o braço todo picado, as três da manhã, porque duas enfermeiras não conseguiam acertar a veia, aí já é pura sacanagem!

Quer saber? 05 – 27 – 32 – 39 – 41 – 50. Amanhã mesmo vou jogar na mega-sena. O resultado traz mais satisfação. E que Murphy queime na mármore do inferno! Não tinha lei melhor para inventar, não??? Humpf!

Manaus/AM, 05/06/08

sábado, 3 de maio de 2008

Ficando para titia

Meu avô sempre me dizia que não queria que eu crescesse. Queria que eu continuasse a ser aquela criança que corria pela casa, sorrindo e, de certa forma, alegrando a família. Hoje, eu entendo bem o que meu saudoso avô queria dizer com aquilo. Como é gostoso ver o sorriso espontâneo de uma criança! Melhor ainda é sentir as mudanças, a evolução, o crescimento...

Lembro quando recebi a notícia do meu irmão de que ele seria pai e eu, conseqüentemente, tia. Tanta mulher pensa por aí: “Tia? Jamais! Nunca vou ficar para a titia”. Pois é. Mas eu fiquei. A Júlia chegou e, com ela, uma paixão diferente em mim. Logo depois, veio a Maria Gabriella, filha de outro irmão. É inexplicável. Deve ser parecido com o amor incondicional que uma mãe devota a um filho. Eu ainda não sei e, quem sabe, um dia saberei. Mas se for parecido, pelo menos sei o que é ter um pouquinho de mim em outra pessoa.

Meu irmão abriu a porta do quarto saltitante de alegria e anunciou: “Lôra, acorda! Eu vou ser pai!!!”. Eu, que sempre me irritei ao ser acordada subitamente, ainda mais depois de uma sexta-feira castigante numa redação de jornal, pulei da cama, o abracei e senti uma vontade enorme de chorar. É... Ali já era fato, eu estava ficando para titia. Uma felicidade invadiu minha alma. Alguém que ainda estava por vir já era muito amado a partir daquele segundo pós-notícia bombástica.

Minha cunhada, coitada (perdoe o termo), teve que agüentar minhas mãos que passeavam pela sua barriga todos os meses até o nascimento da Júlia. Sentir aquele serzinho chutando, se movimentando, faz a gente pensar na mágica da vida. Minhas primeiras impressões desse momento foram a de tentar imaginar como alguém consegue viver naquele espaço pequeno, dividindo terreno com o corpo de uma mulher e, em um instante seguinte, estar nos nossos braços, chorando, sorrindo, dormindo, comendo... É... a mágica da vida. Inexplicável.

A Gabizinha foi uma grata surpresa. Não só isso, foi um caso de amor gradativo ao mesmo tempo em que a apreensão por sua vinda aumentava também. Foram meses intermináveis. Em ambos os casos, ouvi dos meus irmãos: “Lôra, sua sobrinha nasceu”, num tom choroso de felicidade. Sabe aquela sensação de querer jogar tudo para cima e gritar? Como explicar, meu Deus, a transformação que a vinda de uma criança causa na nossa vida a partir daquele segundo? Alguém aí sabe me dizer?

Inexplicável também essa sensação de plenitude que nos invade ao perceber que uma parte de você está ali, bem do seu lado, às vezes pedindo carinho, às vezes fazendo arte, outras vezes chorando ou sorrindo. Enfim... como imaginar que um dia viveremos isso? Eu tenho orgulho de me sentir tia da Júlia e da Gabizinha. Peço licença às minhas cunhadas, mas não só tenho orgulho de ser tia, como também um pouco mãe. É paixão e amor diferente de tudo o que já vivi e senti na vida. São duas criaturinhas que me fazem sorrir mesmo quando estou no momento mais tenso e irritante do dia. Transformam as noites de domingo em alegrias e sorrisos (além de muita bagunça pela casa).

Ver a Júlia correndo em direção aos brinquedos e me chamar com um “Vem tia Nanne. Vem brincar, vem”, ou olhar naquele olhar penetrante da Gabizinha, faz com que todo o mal do mundo desapareça. Se sentir isso é “ficar para a titia”, por favor, peço aos meus irmãos que continuem providenciando mais sobrinhos. E, agora, vou concordar com meu avô. Continuem crianças vocês duas, que eu continuo aqui, titia...

Manaus/AM, 03 de maio de 2008.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Anna

Sentada ali sozinha,
Em meio à sala escura,
Anna derramava suas últimas lágrimas.
Cabisbaixa, desolada,
Sentia o vento bater-lhe
Friamente o rosto.
Seu coração, com acelerados impulsos,
Queria libertar-se da prisão de seu corpo,
Explodir.
Seus sentimentos a atormentavam,
Fantasmas que rondavam sua mente.
No poço de seu sofrimento,
Ela conseguira, então, voar.
Libertou-se, enfim!
Era uma vez Anna...

Manaus. Em algum momento de 1996.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Para o bem da vida

Para o bem da vida, é melhor que sintamos com a pele e com o coração o vento e os olhares perdidos no meio da multidão. É melhor que consigamos sorrir em meio a lágrimas e tenhamos paz de espírito para continuar caminhando.

Para o bem da vida, é melhor que o bom senso prevaleça e, acima de tudo, desigualdades sejam postas de lado, e todos sejam tratados como humanos. Isso! Humanos, seres que respiram, que sentem, que ouvem, que enxergam, que diferenciam gostos e que amam. Seres pensantes! Para o bem da vida, é melhor que possamos utilizar conhecimentos profundos para o crescimento dos povos e não para o seu deterioramento.

É muito melhor para a vida, que consigamos fazer com que a criança que sorri hoje não seja a que vá chorar amanhã, seja por falta de amor, dinheiro, afeto, família ou futuro. O sorriso do outro será meu sorriso refletido e, por causa disso, a vida começará a ser mais colorida.

Para o bem da vida, espero que o amor que se esvai hoje, não seja o ódio plantado amanhã, nem a árvore da ira e inveja depois de amanhã. Não deixar o coração ser corroído faz um bem enorme pra vida.

Para o bem da vida, deixemos a saudade, o carinho, o amor, a palavra bondosa se apossarem de nossos corpos, fluírem em nosso sangue, subirem à cabeça e se tornarem sorriso e atitude eternas.

Para o bem da vida, das pessoas que nos rodeiam e para o nosso bem, faz muito bem ter a alma leve e o coração sorrindo.

Manaus/AM, 09/04/03.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Dia de domingo

Dia de domingo. Aroma de café saído da garrafa térmica, leite, pão quente e manteiga à mesa, barulho de chuva no telhado de zinco. Manhã clássica de domingo na casa dos avós. Vovó era a primeira a levantar. Ia cedo à taberna comprar pão. Voltava, preparava o café, que tradicionalmente era coado no coador antigo, daquele que deixa o café ainda mais gostoso. Digo ‘ainda’, porque café de vó é sempre bom, né? Vovô sentava-se e logo colocava uma das pernas na quina da mesa do café da manhã. Era sua marca registrada.

Naquele tempo, nada de tecnologia. Tudo muito simples e muito gostoso de se viver. Paredes de madeira, banheiro independente da casa, nada de telefones celulares e televisão com controle remoto. Penicos embaixo de cada cama da casa (e eram muitas camas, dada a quantidade de filhos e netos que não saíam dali), mosquiteiros e álcool sempre à mão para espantar a dor das mordidas das jiquitaias (todas elas eram ninjas, porque nunca consegui vê-las). Havia a horta no quintal da casa, o jambeiro ao lado e o igarapé ao fundo. Toda vez que chovia e o igarapé transbordava, olhares atentos para sanguessugas que boiavam na água.

Mas o melhor mesmo eram as pessoas. Primos (de todas as idades), tios, avô e avó. Uma salada só. Pessoas indo e vindo sempre. Cozinha, lugar de um bom papo, sempre lotada. Ah! E tinha o filtro de barro, geladeira antiga e armário velho de ferro. Objetos não apenas de decoração, mas que denunciavam também a longevidade daquela união.

Na hora de ir embora, vovô chegava próximo a nós, enfiava a mão no bolso da calça de linho surrada, tirava um bolo de dinheiro e, escondido, distribuía uma nota de cinco cruzeiros a cada um dos netos. O melhor de tudo não era receber aquele dinheiro, mas o sorriso que acompanhava aquela forma de abraço e carinho. Virávamos, entrávamos no fusquinha e ficávamos olhando pela janela aquela casinha de madeira se distanciar dos nossos olhos. Sabíamos que dali a sete dias isso tudo se repetiria. Festa completa com sabor de convivência e amor.

Domingo tem o típico sabor de família, barulho de chuva no telhado de zinco, café quentinho, penicos embaixo de camas, jiquitaias ninjas e o calor daquele sorriso. Vovô se foi e ficou um gosto de ‘quero mais’. Quero mais da convivência, quero mais daquele carinho, quero mais daquelas conversas, quero mais daquelas ‘bençãos’, quero mais daquele calor humano, quero mais daquela simplicidade. Quero mais um pouco do meu avô, já que o tempo não perdoa e um dia leva todos nós. Domingo. Ah, domingo! Espero o próximo domingo com meu avô. Agora já não serão mais sete dias. Mas, com certeza, haverá outros domingos.

Manaus, 21/03/08.

quinta-feira, 20 de março de 2008

A Lei de Murphy é impiedosa

Ele fazia sempre o mesmo ritual antes de sair de casa: três vezes o sinal da cruz e uma batidinha com a mão na porta de madeira maciça. Tudo isso para que o azar desviasse e passasse longe dele. Por quê? Simplesmente, porque ele tinha o “dom” de atrair loucos, presenciar e participar de cenas bizarras.


Era uma sexta-feira. Sexta-feira 13. Naquele dia, pediu o carro da irmã mais velha para sair com amigos. Um Palio com poucos meses de uso. Antes de sair de casa, o ritual de sempre, reforçado por um pedido em voz alta de: “que nada de ruim aconteça”. A visão da irmã, histérica, gritando, fez com que ele reforçasse de novo o pedido, agora em pensamento e uma figa na mão: “que nada de ruim aconteça”. E, assim, ele saiu. Guiou o carro da irmã até o local de trabalho de um dos amigos, onde toda a turma estava reunida.


Todos preparados para ir à balada, animação total, e ele resolveu, de supetão, que não seria uma boa noite para baladas. Sabe como é, sexta-feira 13, carro emprestado da irmã, bebida e turma reunida. Era tudo perfeito demais. Tão perfeito, que alguma coisa, com certeza, iria acontecer. Assim, despediu-se de todos e tomou o caminho de casa. Tirou o carro do estacionamento, desceu a ladeira e chegou ao cruzamento. O caminho mais viável requeria uma conversão proibida à esquerda. Nesse momento, pensou no próprio bolso e no quanto economizaria de combustível.


É como diz a Lei de Murphy: se alguma coisa pode dar errado, vai dar errado. Ao fazer a conversão, não atentou para o fluxo de carros. Resultado: deu errado. Um Fusca branco veio na direção dele quando ele ainda estava no meio da rua. Sexta-feira 13, carro emprestado da irmã histérica, conversão proibida... É. A Lei de Murphy é impiedosa. Palio e Fusca se chocaram no meio da rua e cada carro ficou atravessado em uma das mãos da rua.


Os carros começaram a parar, porque a rua ficou interditada nos dois sentidos. Ele, o ‘azarado’, ficou nervoso, ligou para a irmã, que, naturalmente, ficou histérica e soltou berros ao telefone. Enquanto isso, o motorista do Fusca estava calmo. Mas o trânsito ficou parado. A extensão da fila de carros aumentava a cada segundo. Para completar a noite, aparece um homem que começa a orientar os motoristas ‘presos’ no engarrafamento e a controlar o fluxo dos carros. No meio da euforia da situação, o ‘azarado’ se dá conta: era um médico conhecido na cidade pela fama de realizar cirurgias abortivas. O que mais faltava naquela noite? Mais nada. No fim das contas, a perícia foi chamada, os carros foram guinchados e o seguro acionado. Alívio momentâneo.


Meses depois, já com o próprio carro, pago num duradouro consórcio, ele segue por uma movimentada avenida da cidade, quando vê uma figura estranha tentar atravessar. Era uma mulher nua. Após a freada brusca, a mulher se agacha, faz xixi em frente ao carro dele, levanta, sorri, mesmo sem um resquício de dentes, e dá um tchauzinho.


Dias depois, ignorando completamente a Lei de Murphy, ele visita uma amiga e estaciona o carro na frente da casa da jovem. Meia hora depois, ouve um estrondo. Quis não acreditar, mas já sabia que a única possibilidade de alguma coisa dar errada tinha acontecido. Incrédulo, foi até a rua ver para crer. De um outro carro, sai um homem visivelmente alcoolizado, apontando para as pessoas e dizendo: quem estacionou esse carro no meio da rua? Sim, o tal homem fez o favor de, em alta velocidade, bater no carro do ‘azarado’. Pior, havia outro carro estacionado na frente do carro dele. O coitado ficou sanfonado. O único pensamento foi: “o que eu fiz para merecer isso?”.


Como parte das ações de mudanças, resolveu três coisas: acabar com o ritual antes de sair de casa; nunca mais emprestar o carro da irmã; e comprar uma bicicleta para usar nos dias em que o carro for batido. Até porque, da maldição de atrair loucos e participar de cenas bizarras, ele não vai se livrar nunca.

Manaus/AM, 08/06/07.

terça-feira, 18 de março de 2008

Aeroporto

Um segundo se passa. Olhares se cruzam. Aquela paradinha. Olhares que nunca mais se perderam. Um passo. O abraço. Aeroporto tem disso. Emoções que afloram, explodem. Saguão de aeroporto sempre vai me remeter a este tipo de sensação. Reencontro, sorrisos, choros, despedidas. Aeroporto. Aeroporto... Deve ser assim nas rodoviárias e portos também. Mas o aeroporto... Humm... A pessoa vira e vai. E você fica olhando-a ir para, sabe Deus, quando retornar (quem sabe se isso realmente vai acontecer ou não). Na mala de cada um, uma vida inteira. No coração de quem fica, tristeza. No de quem vai, sabe-se lá o que se passa. Aliás, sabe-se sim. Cada um sabe. E isso depende muito de quem se deixa ali, no saguão.

Mas tem coisa melhor do que a chegada de alguém querido? Emoções. Além do barulho infernal das turbinas dos aviões, 'dings dongs' de anúncios de chegadas e partidas de aviões, daquela voz padronizada que faz o tal anúncio, há um turbilhão de emoções. Saguão lotado. Gente com placas nas mãos. Turistas. Muitos turistas. E quando pensamos que tudo vai dar certinho, nos perdemos... Em pensamentos, sensações, situações.

Os olhares se cruzaram. Sim, muita gente. Crianças correndo de um lado para o outro. E foi assim que mais uma vez digo que nos reencontramos. Depois da paradinha, o primeiro passo. Frente a frente. E... Alguém passa no meio. De repente, além de olhares, sorrisos. E o tão esperado abraço.

Saguão de aeroporto passou, então, a ter um significado para mim. Não é lugar só de passagem. Também é de encontro. Dá um certo friozinho na barriga chegar àquele lugar tão espaçoso, com tantas pessoas indo e vindo. Mas, um certo alívio pelas sensações. Sorrisos que virão, abraços recebidos, gestos, pequenos gestos mútuos. Isto revela tanto das pessoas. Cada um deve ter uma maneira de definir sentimentos, sensações, idéias, fatos. Mas, e quem consegue definir os encontros? Quem define aquele pedaço de segundo que se torna momento nas recordações e lembranças?

É assim que vai ser a vida inteira. Quanto mais encontrarmos pessoas, mais momentos de recordações guardaremos. E a vida vai se tornando um livro cheio desses momentos. Não haverá nada mais que possamos levar dessa vida. Levamos somente aquilo que ficou gravado na nossa alma. Tem coisa melhor para deixar guardadinho na gente do que isso? Pessoas, sentimentos, emoções e sensações. Aeroporto é mesmo um bicho danado!

Manaus, 23/12/2006.

'Lincença internética'

A tal da licença poética pode ser traduzida, atualmente, para ‘licença internética’. Ora, vemos, hoje, um show de monstruosidades na língua portuguesa, principalmente, na rede mundial de computadores. Além dos milhares de analfabetos brasileiros, a popularização da internet cria outro nível de analfabetos. Ou diria, pessoas sem o total senso da língua materna.

Para tudo no Brasil cria-se uma licença. Os publicitários têm uma licença para utilizar em suas peças, os poetas, também. No Direito, advogados, juízes e desembargadores não utilizam somente palavras difíceis, como também o latim, para ficar complicada mesmo a compreensão de qualquer ser menos culto. Entre outras licenças nas demais profissões, da qual não me excluo. A internet não poderia ficar de fora das exceções tupiniquins.

Entre as palavras mais comumente modificadas está a “não”, usualmente trocada por “naum”. É tão difícil assim digitar o til? Ou será mais fácil escrever a palavra na forma fonética? Entre as tantas bizarrices na ortografia, existe a de trocar o “c” pelo “x”. Sem contar nas abreviações e nas palavras escritas literalmente na forma falada. “Você” virou “voxe”, “vc”, etc... Amigo virou “miguxo” e “por que” (e suas variações) virou “pq”. Trocou-se o “qu” pelo “k” e “quem” virou “kem”. Algumas expressões foram modificadas, como “não tinha”, que se transformou em “num tinha”, a exemplo de algumas frases utilizadas no mundo virtual. Não é raro encontrar pessoas que desaprenderam a forma correta de grafia das palavras.

O que vemos é uma geração que nasce com ‘a mão no mouse’, sendo desecudada em sua própria língua materna. E a culpa não é da internet, óbvio. Afinal, internet é um meio, tanto de comunicação, como de auxílio, uma ferramenta. A culpa também não é das escolas, que incluem milhares de aulas de língua portuguesa em seus quadros. O que será que está acontecendo, então?

A verdade, se é que ela existe, é que o ‘português brasileiro’ não é seguido à risca por ninguém. Tornou-se um martírio popular, nas provas de vestibular, concursos e na atuação profissional, independente da área em que se atue. Fala-se tanto em uma nova regra igualitária a todos os países de língua portuguesa. A extinção do trema e de acentos em determinadas palavras não vai mudar a realidade brasileira... A realidade da falta de acesso à educação, coisa tão antiga no País, e a realidade do desaprendizado difundido nos programas de conversa, chats e sites de relacionamento.

Não defendo o uso correto e expresso das palavras na internet, até porque, quem nunca abreviou uma palavra ou mudou uma grafia durante uma conversa na internet que atire a primeira pedra. Sou a favor da disseminação correta do português e que as pessoas saibam falar tão corretamente quanto aprenderam (?) nos bancos da escola a escrever.

Manaus, 28/02/2008.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Os conceitos mudam

Conceitos mudam a todo instante. Foi assim com João. Um adolescente direito, freqüentador assíduo das missas de domingo, não bebia, não fumava, não dançava e não traía suas namoradinhas. Aos 18 anos, João apaixonou-se por uma garota dois anos mais nova. E ela era assim: gostava de sair, de beber, de dançar, de conviver com os muitos amigos que tinha. João não conseguia se encaixar nesse ritmo. Brigava com a namorada constantemente. “Para quê beber? Eu vi meu tio morrer de cirrose!!!”, dizia sempre. João era comportado. E não sabia como conciliar a paixão com os gostos da namorada. Então, começou a fazer o que todo homem num determinado momento do relacionamento faz: irritar a namorada. Como? Quando saíam juntos, João dançava com as amigas da namorada, mas não com ela, ensaiava bebericar uns goles de cerveja com os amigos, mas não com ela... Ela ficava chateada e, apesar de muito apaixonada por João, pensava: “Traio ou não traio?”. Dúvida que logo foi respondida pelos atos. No relacionamento deles não havia sintonia. Ela traiu João, que ficou sabendo.

Entre choros e socos no volante do carro, João rebelou-se. Não agüentou o peso da traição e terminou o namoro. Paixão nenhuma se sustenta depois de descoberta a traição. Até então, João tinha convicção de que, quando se ama uma pessoa, não é necessária mais nenhuma outra. Ele tinha acabado de passar no vestibular, começou a sair com os amigos de faculdade e, de repente, descobriu que tudo aquilo que ele apontava de ruim no comportamento da ex-namorada também achava bom. Começou a beber com amigos, a dançar nas baladas, a “ficar” com várias “amiguinhas” de faculdade e, pouco depois, acabou namorando uma delas. Agora, para João, traição não era mais a pior coisa do mundo. Teve uma namorada com a qual, depois de dois anos, abriu o jogo e disse que a tinha traído com uma amiga em comum. Achou a coisa mais natural do mundo trair e contar para a namorada. O namoro terminou. Mais um motivado por traição.

Dez anos mais tarde, num encontro casual com a ex-namorada de adolescência, João, já casado, revela o que realmente pensa sobre relacionamentos, amor, paixão, fidelidade e traição. “Se fidelidade é ficar somente com uma pessoa, eu não sei ser fiel. Se for amar apenas uma mulher, sou muito fiel. Acho que se bater o tesão por uma mulher que não seja a minha esposa, eu invisto. Porque acho que as pessoas não pertencem a uma outra apenas e, se rolou um desejo, por que não? Eu amo transar com minha mulher, ela me completa e me faz feliz. Mas eu também gosto das outras mulheres”. E completou: “Obrigado pelo que você fez!”.

As pessoas mudam e os conceitos de cada um também. Nesse caso, o de traição, o conceito é individual e democrático. Cada um pensa de um jeito e sempre vai ter alguém para discordar de atitudes, independente de quais sejam. Portanto, trair ou não trair vai ser sempre uma questão polêmica.


Manaus/AM, 20/02/2007.

terça-feira, 4 de março de 2008

Espelho

Eu estava cá com meus botões tentando chegar a uma auto-definição. É difícil se olhar no espelho e se despir da imagem formada que já temos. Tantas vezes, o espelho reflete e a íris não capta a mensagem. Hoje, resolvi tentar enxergá-la sem preconceitos ou medos. Aliás, o medo me dá medo. Mas vamos lá.
Não sou popular. Não sou falsa. Não sou extrovertida. Não sou unanimidade. Não sou egoísta. Não sou perfeita. Não sou a mulher maravilha. Não sou sociável. Não sou de grupos. Não sou individualista. Não sou preconceituosa (ou pelo menos acho). Não sou burra. Não sou idiota. Não sou boba (apesar de muita gente achar que sou essas três coisas juntas). Não sou de fazer média com ninguém. Não sou socialista, capitalista, ou qualquer definição de mercado. Não sou times de futebol. Não sou insensível (como muitos podem achar que sou). Não sou brava. Não sou grossa. Não sou falante. Não sou ingênua.
Sou verde, amarelo, azul e branco. Sou Amazônia, com muito orgulho. Sou família. Sou tia apaixonada. Sou verdadeira. Sou amiga. Sou sincera. Sou leal. Sou companheira. Sou lassalista. Sou tímida. Sou fiel. Sou carinhosa. Sou sorrisos, lágrimas e olhos brilhantes. Sou oito e oitenta. Sou a minha profissão. Sou gentil. Sou educada e, ao mesmo tempo, Sou palavrões. Sou observadora. Sou medos. Sou quieta. Sou música. Sou aromas. Sou legal. Sou alegre e triste. Sou branco e preto. Sou as lembranças da minha vida. Sou reflexo dos momentos. Sou paixão. Sou amor. Sou carente. Sou razão e coração. Sou pé no chão e cabeça na Lua. Sou defeitos (e virtudes). Sou Nanne para os amigos. Sou May e Mayanne para tantos outros. Sou Lôra para meus irmãos. Sou a 'Cuca' para meu pai. Sou fofa para minha mãe. E serei eternamente a 'brancozinha' do meu avô. Sou aquilo que meus olhos ainda não são capazes de enxergar. Sou eu, assim, desde criancinha.
Sou tantas coisas que ainda não sei ou que, simplesmente, estão escondidas em mim e não enxergo (ainda).
Mas essa sou eu. Simples assim.

Manaus/AM, 04/03/2008

sábado, 1 de março de 2008

Miguel, o medidor

A essas alturas, o Miguel já deve ter partido para melhor. Ou não. O que acontece é que lembrei dele. Uma lembrança cheia de ternura e carinho, muito mais pelos momentos do que por outros motivos. Miguel presenciou alguns desses raros momentos que não deveriam (ou de fato deveriam!) ser apagados da lembrança. Ele acompanhou os primeiros passos do que hoje é algo natural, como caminhar ou andar de bicicleta. Acompanhou meus primeiros ensinamentos ao volante. Observou, lógico, enquanto eu o consumia como uma louca sem saber que o seu conteúdo seria, atualmente, considerado artigo de luxo que poucos podem ostentar. Falo do Miguel, porque ele observou atentamente sorrisos, choros, discussões e momentos de pânico. O incrível medidor de combustível do fusca branco de um antigo namorado me acompanhou nestes raros momentos da vida que acabei de relatar. E são esses momentos que hoje retornam à minha mente como algo que acabou de acontecer. Na realidade, vejo o tempo como algo sempre presente. Então, o Miguel me remeteu a outras situações que, hoje, vejo que foram essenciais para a construção de muitas coisas.
Com 17 anos não pensamos em absolutamente nada da vida de adulto. Não há medidas para nada. Não há medida para o amor, o desamor, os encontros, desencontros, as brigas, as reconciliações, as alegrias, as tristezas, a felicidade ou as mágoas. Simplesmente, somos. Deixamos de ser quando as medidas tomam conta do nosso eu. Tudo passa a ter um limite, senão pelo seu bom senso, outrora pelo bom senso que você passa a enxergar no outro, aquilo que chamamos de padrões estipulados pela sociedade. Com o Miguel não havia medidas. E o tempo dele é um tempo que merece boas recordações. Afinal, ele me viu crescer, amadurecer e acompanhou uma ínfima, porém uma importante fase da minha vida que começava a ser traçada a partir dali.
Era no Miguel que eu via, já naquele tempo, o então namorado implorar para ele agüentar mais um pouco. E surgiam aquelas brincadeiras do tipo: “Vamos ficar no prego!”. Imaginem, um fusca que, na época, se colocassem R$ 3 de combustível no coitado ele rodava a cidade toda e voltava com sobra de gasolina. Lógico, tudo escondido da então sogra, que vigiava a quilometragem do carro querido. Era uma festa, que se tornava maior quando o medidor da quilometragem era, espertamente, desligado. Confissões que só agora a ex-futura sogra ficará a par. Isso, se ela chegar a lê-las algum dia.
Não devo nada disso ao Miguel, lógico. Só devo a ele as gargalhadas das lembranças de um tempo bom e as recordações de uma adolescência vivida em sua totalidade. Não sei por quais caminhos o Miguel anda, mas vale a recordação de um simples medidor de combustível de um fusca gerar tantos brilhos nos olhos.


Manaus-AM, 22/07/2004

'Cara-de-pau'

Se tem uma coisa que o jornalismo me ensinou foi a ser um pouco ‘cara-de-pau’ nessa vida. Às vezes, é preciso. Não somente isso, necessário. Não dá para ter vergonha de fazer uma pergunta ou pedir para o entrevistado soletrar o nome, por exemplo. Essa falta de timidez tive que aprender na ‘marra’. Não é fácil se livrar de certas atitudes, ‘limpar’ a cara e falar com certa naturalidade algo que, naturalmente, causaria rubor à face. É assim na profissão e estou adotando isso no dia-a-dia.
Certa vez, me vi enrascada. Olhava para o relógio, os ponteiros passando. Em menos de 20 minutos eu teria que enfrentar filas em dois bancos. Lembrei-me disso quando já estava há cinco minutos na fila de um dos bancos. Naquela ocasião, o tempo era ‘apertado’, porque ainda precisaria chegar pontualmente ao trabalho. Sabe como é, chefe nenhum gosta de ver o subordinado chegando atrasado. O relógio estava contra mim, então. Tive que tomar uma atitude. Ou eu desistia de pagar as contas (e acumulava juros e multas) para chegar pontualmente ao trabalho ou... é... isso mesmo. Resolvi que ficaria com a segunda opção. Afinal, dinheiro não dá em árvore (se desse, eu também estaria ferrada porque não tenho árvore em casa!) e as contas estão aí para serem pagas mesmo. Não tinha jeito. Tive que tomar uma atitude de mulher desesperada!
Olhei para trás e gentilmente pedi ao senhor que estava também na fila: o senhor pode guardar meu lugar na fila enquanto vou ao meu carro, rapidamente? Ele respondeu: guardo sim. Diante disso, vi-me em outra situação: pensar em que parte daquele bairro haveria um banco próximo onde eu poderia fazer o que pretendia. Andei dois quarteirões, subindo e descendo avenida, embaixo de um sol escaldante, até encontrar o bendito banco. Voltei 10 minutos depois ao primeiro banco.
A fila já tinha ‘andado’ bastante e faltavam apenas duas pessoas serem atendidas, que estavam à frente do senhor o qual pedi a gentileza. ‘Envernizei’ a cara, escondi a dor pela bolha no pé (afinal, tive que apressar o passo) e segui adiante. Passei por todos na fila e, olhando para o senhor, disse: oi, voltei! E ele: pensei que a moça tinha desistido. Respondi: desculpe, é que deixei meu carro muito distante do banco. Mais cinco minutos e fui atendida.
Saí de lá com o ‘dever’ cumprido e ‘cara-de-pau’ latejando. Bem que o relógio poderia ser maior (quem sabe os ponteiros demorariam mais a dar a voltinha no relógio). Essa falta de tempo maltrata! E ‘óleo de peroba’ também ajuda de vez em quando. Coisas da vida. Por isso que eu digo: vivendo, aprendendo e passando adiante. ‘Cara-de-pau’, minha gente!

Manaus-AM, 01/11/07