sexta-feira, 21 de março de 2008

Dia de domingo

Dia de domingo. Aroma de café saído da garrafa térmica, leite, pão quente e manteiga à mesa, barulho de chuva no telhado de zinco. Manhã clássica de domingo na casa dos avós. Vovó era a primeira a levantar. Ia cedo à taberna comprar pão. Voltava, preparava o café, que tradicionalmente era coado no coador antigo, daquele que deixa o café ainda mais gostoso. Digo ‘ainda’, porque café de vó é sempre bom, né? Vovô sentava-se e logo colocava uma das pernas na quina da mesa do café da manhã. Era sua marca registrada.

Naquele tempo, nada de tecnologia. Tudo muito simples e muito gostoso de se viver. Paredes de madeira, banheiro independente da casa, nada de telefones celulares e televisão com controle remoto. Penicos embaixo de cada cama da casa (e eram muitas camas, dada a quantidade de filhos e netos que não saíam dali), mosquiteiros e álcool sempre à mão para espantar a dor das mordidas das jiquitaias (todas elas eram ninjas, porque nunca consegui vê-las). Havia a horta no quintal da casa, o jambeiro ao lado e o igarapé ao fundo. Toda vez que chovia e o igarapé transbordava, olhares atentos para sanguessugas que boiavam na água.

Mas o melhor mesmo eram as pessoas. Primos (de todas as idades), tios, avô e avó. Uma salada só. Pessoas indo e vindo sempre. Cozinha, lugar de um bom papo, sempre lotada. Ah! E tinha o filtro de barro, geladeira antiga e armário velho de ferro. Objetos não apenas de decoração, mas que denunciavam também a longevidade daquela união.

Na hora de ir embora, vovô chegava próximo a nós, enfiava a mão no bolso da calça de linho surrada, tirava um bolo de dinheiro e, escondido, distribuía uma nota de cinco cruzeiros a cada um dos netos. O melhor de tudo não era receber aquele dinheiro, mas o sorriso que acompanhava aquela forma de abraço e carinho. Virávamos, entrávamos no fusquinha e ficávamos olhando pela janela aquela casinha de madeira se distanciar dos nossos olhos. Sabíamos que dali a sete dias isso tudo se repetiria. Festa completa com sabor de convivência e amor.

Domingo tem o típico sabor de família, barulho de chuva no telhado de zinco, café quentinho, penicos embaixo de camas, jiquitaias ninjas e o calor daquele sorriso. Vovô se foi e ficou um gosto de ‘quero mais’. Quero mais da convivência, quero mais daquele carinho, quero mais daquelas conversas, quero mais daquelas ‘bençãos’, quero mais daquele calor humano, quero mais daquela simplicidade. Quero mais um pouco do meu avô, já que o tempo não perdoa e um dia leva todos nós. Domingo. Ah, domingo! Espero o próximo domingo com meu avô. Agora já não serão mais sete dias. Mas, com certeza, haverá outros domingos.

Manaus, 21/03/08.

quinta-feira, 20 de março de 2008

A Lei de Murphy é impiedosa

Ele fazia sempre o mesmo ritual antes de sair de casa: três vezes o sinal da cruz e uma batidinha com a mão na porta de madeira maciça. Tudo isso para que o azar desviasse e passasse longe dele. Por quê? Simplesmente, porque ele tinha o “dom” de atrair loucos, presenciar e participar de cenas bizarras.


Era uma sexta-feira. Sexta-feira 13. Naquele dia, pediu o carro da irmã mais velha para sair com amigos. Um Palio com poucos meses de uso. Antes de sair de casa, o ritual de sempre, reforçado por um pedido em voz alta de: “que nada de ruim aconteça”. A visão da irmã, histérica, gritando, fez com que ele reforçasse de novo o pedido, agora em pensamento e uma figa na mão: “que nada de ruim aconteça”. E, assim, ele saiu. Guiou o carro da irmã até o local de trabalho de um dos amigos, onde toda a turma estava reunida.


Todos preparados para ir à balada, animação total, e ele resolveu, de supetão, que não seria uma boa noite para baladas. Sabe como é, sexta-feira 13, carro emprestado da irmã, bebida e turma reunida. Era tudo perfeito demais. Tão perfeito, que alguma coisa, com certeza, iria acontecer. Assim, despediu-se de todos e tomou o caminho de casa. Tirou o carro do estacionamento, desceu a ladeira e chegou ao cruzamento. O caminho mais viável requeria uma conversão proibida à esquerda. Nesse momento, pensou no próprio bolso e no quanto economizaria de combustível.


É como diz a Lei de Murphy: se alguma coisa pode dar errado, vai dar errado. Ao fazer a conversão, não atentou para o fluxo de carros. Resultado: deu errado. Um Fusca branco veio na direção dele quando ele ainda estava no meio da rua. Sexta-feira 13, carro emprestado da irmã histérica, conversão proibida... É. A Lei de Murphy é impiedosa. Palio e Fusca se chocaram no meio da rua e cada carro ficou atravessado em uma das mãos da rua.


Os carros começaram a parar, porque a rua ficou interditada nos dois sentidos. Ele, o ‘azarado’, ficou nervoso, ligou para a irmã, que, naturalmente, ficou histérica e soltou berros ao telefone. Enquanto isso, o motorista do Fusca estava calmo. Mas o trânsito ficou parado. A extensão da fila de carros aumentava a cada segundo. Para completar a noite, aparece um homem que começa a orientar os motoristas ‘presos’ no engarrafamento e a controlar o fluxo dos carros. No meio da euforia da situação, o ‘azarado’ se dá conta: era um médico conhecido na cidade pela fama de realizar cirurgias abortivas. O que mais faltava naquela noite? Mais nada. No fim das contas, a perícia foi chamada, os carros foram guinchados e o seguro acionado. Alívio momentâneo.


Meses depois, já com o próprio carro, pago num duradouro consórcio, ele segue por uma movimentada avenida da cidade, quando vê uma figura estranha tentar atravessar. Era uma mulher nua. Após a freada brusca, a mulher se agacha, faz xixi em frente ao carro dele, levanta, sorri, mesmo sem um resquício de dentes, e dá um tchauzinho.


Dias depois, ignorando completamente a Lei de Murphy, ele visita uma amiga e estaciona o carro na frente da casa da jovem. Meia hora depois, ouve um estrondo. Quis não acreditar, mas já sabia que a única possibilidade de alguma coisa dar errada tinha acontecido. Incrédulo, foi até a rua ver para crer. De um outro carro, sai um homem visivelmente alcoolizado, apontando para as pessoas e dizendo: quem estacionou esse carro no meio da rua? Sim, o tal homem fez o favor de, em alta velocidade, bater no carro do ‘azarado’. Pior, havia outro carro estacionado na frente do carro dele. O coitado ficou sanfonado. O único pensamento foi: “o que eu fiz para merecer isso?”.


Como parte das ações de mudanças, resolveu três coisas: acabar com o ritual antes de sair de casa; nunca mais emprestar o carro da irmã; e comprar uma bicicleta para usar nos dias em que o carro for batido. Até porque, da maldição de atrair loucos e participar de cenas bizarras, ele não vai se livrar nunca.

Manaus/AM, 08/06/07.

terça-feira, 18 de março de 2008

Aeroporto

Um segundo se passa. Olhares se cruzam. Aquela paradinha. Olhares que nunca mais se perderam. Um passo. O abraço. Aeroporto tem disso. Emoções que afloram, explodem. Saguão de aeroporto sempre vai me remeter a este tipo de sensação. Reencontro, sorrisos, choros, despedidas. Aeroporto. Aeroporto... Deve ser assim nas rodoviárias e portos também. Mas o aeroporto... Humm... A pessoa vira e vai. E você fica olhando-a ir para, sabe Deus, quando retornar (quem sabe se isso realmente vai acontecer ou não). Na mala de cada um, uma vida inteira. No coração de quem fica, tristeza. No de quem vai, sabe-se lá o que se passa. Aliás, sabe-se sim. Cada um sabe. E isso depende muito de quem se deixa ali, no saguão.

Mas tem coisa melhor do que a chegada de alguém querido? Emoções. Além do barulho infernal das turbinas dos aviões, 'dings dongs' de anúncios de chegadas e partidas de aviões, daquela voz padronizada que faz o tal anúncio, há um turbilhão de emoções. Saguão lotado. Gente com placas nas mãos. Turistas. Muitos turistas. E quando pensamos que tudo vai dar certinho, nos perdemos... Em pensamentos, sensações, situações.

Os olhares se cruzaram. Sim, muita gente. Crianças correndo de um lado para o outro. E foi assim que mais uma vez digo que nos reencontramos. Depois da paradinha, o primeiro passo. Frente a frente. E... Alguém passa no meio. De repente, além de olhares, sorrisos. E o tão esperado abraço.

Saguão de aeroporto passou, então, a ter um significado para mim. Não é lugar só de passagem. Também é de encontro. Dá um certo friozinho na barriga chegar àquele lugar tão espaçoso, com tantas pessoas indo e vindo. Mas, um certo alívio pelas sensações. Sorrisos que virão, abraços recebidos, gestos, pequenos gestos mútuos. Isto revela tanto das pessoas. Cada um deve ter uma maneira de definir sentimentos, sensações, idéias, fatos. Mas, e quem consegue definir os encontros? Quem define aquele pedaço de segundo que se torna momento nas recordações e lembranças?

É assim que vai ser a vida inteira. Quanto mais encontrarmos pessoas, mais momentos de recordações guardaremos. E a vida vai se tornando um livro cheio desses momentos. Não haverá nada mais que possamos levar dessa vida. Levamos somente aquilo que ficou gravado na nossa alma. Tem coisa melhor para deixar guardadinho na gente do que isso? Pessoas, sentimentos, emoções e sensações. Aeroporto é mesmo um bicho danado!

Manaus, 23/12/2006.

'Lincença internética'

A tal da licença poética pode ser traduzida, atualmente, para ‘licença internética’. Ora, vemos, hoje, um show de monstruosidades na língua portuguesa, principalmente, na rede mundial de computadores. Além dos milhares de analfabetos brasileiros, a popularização da internet cria outro nível de analfabetos. Ou diria, pessoas sem o total senso da língua materna.

Para tudo no Brasil cria-se uma licença. Os publicitários têm uma licença para utilizar em suas peças, os poetas, também. No Direito, advogados, juízes e desembargadores não utilizam somente palavras difíceis, como também o latim, para ficar complicada mesmo a compreensão de qualquer ser menos culto. Entre outras licenças nas demais profissões, da qual não me excluo. A internet não poderia ficar de fora das exceções tupiniquins.

Entre as palavras mais comumente modificadas está a “não”, usualmente trocada por “naum”. É tão difícil assim digitar o til? Ou será mais fácil escrever a palavra na forma fonética? Entre as tantas bizarrices na ortografia, existe a de trocar o “c” pelo “x”. Sem contar nas abreviações e nas palavras escritas literalmente na forma falada. “Você” virou “voxe”, “vc”, etc... Amigo virou “miguxo” e “por que” (e suas variações) virou “pq”. Trocou-se o “qu” pelo “k” e “quem” virou “kem”. Algumas expressões foram modificadas, como “não tinha”, que se transformou em “num tinha”, a exemplo de algumas frases utilizadas no mundo virtual. Não é raro encontrar pessoas que desaprenderam a forma correta de grafia das palavras.

O que vemos é uma geração que nasce com ‘a mão no mouse’, sendo desecudada em sua própria língua materna. E a culpa não é da internet, óbvio. Afinal, internet é um meio, tanto de comunicação, como de auxílio, uma ferramenta. A culpa também não é das escolas, que incluem milhares de aulas de língua portuguesa em seus quadros. O que será que está acontecendo, então?

A verdade, se é que ela existe, é que o ‘português brasileiro’ não é seguido à risca por ninguém. Tornou-se um martírio popular, nas provas de vestibular, concursos e na atuação profissional, independente da área em que se atue. Fala-se tanto em uma nova regra igualitária a todos os países de língua portuguesa. A extinção do trema e de acentos em determinadas palavras não vai mudar a realidade brasileira... A realidade da falta de acesso à educação, coisa tão antiga no País, e a realidade do desaprendizado difundido nos programas de conversa, chats e sites de relacionamento.

Não defendo o uso correto e expresso das palavras na internet, até porque, quem nunca abreviou uma palavra ou mudou uma grafia durante uma conversa na internet que atire a primeira pedra. Sou a favor da disseminação correta do português e que as pessoas saibam falar tão corretamente quanto aprenderam (?) nos bancos da escola a escrever.

Manaus, 28/02/2008.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Os conceitos mudam

Conceitos mudam a todo instante. Foi assim com João. Um adolescente direito, freqüentador assíduo das missas de domingo, não bebia, não fumava, não dançava e não traía suas namoradinhas. Aos 18 anos, João apaixonou-se por uma garota dois anos mais nova. E ela era assim: gostava de sair, de beber, de dançar, de conviver com os muitos amigos que tinha. João não conseguia se encaixar nesse ritmo. Brigava com a namorada constantemente. “Para quê beber? Eu vi meu tio morrer de cirrose!!!”, dizia sempre. João era comportado. E não sabia como conciliar a paixão com os gostos da namorada. Então, começou a fazer o que todo homem num determinado momento do relacionamento faz: irritar a namorada. Como? Quando saíam juntos, João dançava com as amigas da namorada, mas não com ela, ensaiava bebericar uns goles de cerveja com os amigos, mas não com ela... Ela ficava chateada e, apesar de muito apaixonada por João, pensava: “Traio ou não traio?”. Dúvida que logo foi respondida pelos atos. No relacionamento deles não havia sintonia. Ela traiu João, que ficou sabendo.

Entre choros e socos no volante do carro, João rebelou-se. Não agüentou o peso da traição e terminou o namoro. Paixão nenhuma se sustenta depois de descoberta a traição. Até então, João tinha convicção de que, quando se ama uma pessoa, não é necessária mais nenhuma outra. Ele tinha acabado de passar no vestibular, começou a sair com os amigos de faculdade e, de repente, descobriu que tudo aquilo que ele apontava de ruim no comportamento da ex-namorada também achava bom. Começou a beber com amigos, a dançar nas baladas, a “ficar” com várias “amiguinhas” de faculdade e, pouco depois, acabou namorando uma delas. Agora, para João, traição não era mais a pior coisa do mundo. Teve uma namorada com a qual, depois de dois anos, abriu o jogo e disse que a tinha traído com uma amiga em comum. Achou a coisa mais natural do mundo trair e contar para a namorada. O namoro terminou. Mais um motivado por traição.

Dez anos mais tarde, num encontro casual com a ex-namorada de adolescência, João, já casado, revela o que realmente pensa sobre relacionamentos, amor, paixão, fidelidade e traição. “Se fidelidade é ficar somente com uma pessoa, eu não sei ser fiel. Se for amar apenas uma mulher, sou muito fiel. Acho que se bater o tesão por uma mulher que não seja a minha esposa, eu invisto. Porque acho que as pessoas não pertencem a uma outra apenas e, se rolou um desejo, por que não? Eu amo transar com minha mulher, ela me completa e me faz feliz. Mas eu também gosto das outras mulheres”. E completou: “Obrigado pelo que você fez!”.

As pessoas mudam e os conceitos de cada um também. Nesse caso, o de traição, o conceito é individual e democrático. Cada um pensa de um jeito e sempre vai ter alguém para discordar de atitudes, independente de quais sejam. Portanto, trair ou não trair vai ser sempre uma questão polêmica.


Manaus/AM, 20/02/2007.

terça-feira, 4 de março de 2008

Espelho

Eu estava cá com meus botões tentando chegar a uma auto-definição. É difícil se olhar no espelho e se despir da imagem formada que já temos. Tantas vezes, o espelho reflete e a íris não capta a mensagem. Hoje, resolvi tentar enxergá-la sem preconceitos ou medos. Aliás, o medo me dá medo. Mas vamos lá.
Não sou popular. Não sou falsa. Não sou extrovertida. Não sou unanimidade. Não sou egoísta. Não sou perfeita. Não sou a mulher maravilha. Não sou sociável. Não sou de grupos. Não sou individualista. Não sou preconceituosa (ou pelo menos acho). Não sou burra. Não sou idiota. Não sou boba (apesar de muita gente achar que sou essas três coisas juntas). Não sou de fazer média com ninguém. Não sou socialista, capitalista, ou qualquer definição de mercado. Não sou times de futebol. Não sou insensível (como muitos podem achar que sou). Não sou brava. Não sou grossa. Não sou falante. Não sou ingênua.
Sou verde, amarelo, azul e branco. Sou Amazônia, com muito orgulho. Sou família. Sou tia apaixonada. Sou verdadeira. Sou amiga. Sou sincera. Sou leal. Sou companheira. Sou lassalista. Sou tímida. Sou fiel. Sou carinhosa. Sou sorrisos, lágrimas e olhos brilhantes. Sou oito e oitenta. Sou a minha profissão. Sou gentil. Sou educada e, ao mesmo tempo, Sou palavrões. Sou observadora. Sou medos. Sou quieta. Sou música. Sou aromas. Sou legal. Sou alegre e triste. Sou branco e preto. Sou as lembranças da minha vida. Sou reflexo dos momentos. Sou paixão. Sou amor. Sou carente. Sou razão e coração. Sou pé no chão e cabeça na Lua. Sou defeitos (e virtudes). Sou Nanne para os amigos. Sou May e Mayanne para tantos outros. Sou Lôra para meus irmãos. Sou a 'Cuca' para meu pai. Sou fofa para minha mãe. E serei eternamente a 'brancozinha' do meu avô. Sou aquilo que meus olhos ainda não são capazes de enxergar. Sou eu, assim, desde criancinha.
Sou tantas coisas que ainda não sei ou que, simplesmente, estão escondidas em mim e não enxergo (ainda).
Mas essa sou eu. Simples assim.

Manaus/AM, 04/03/2008

sábado, 1 de março de 2008

Miguel, o medidor

A essas alturas, o Miguel já deve ter partido para melhor. Ou não. O que acontece é que lembrei dele. Uma lembrança cheia de ternura e carinho, muito mais pelos momentos do que por outros motivos. Miguel presenciou alguns desses raros momentos que não deveriam (ou de fato deveriam!) ser apagados da lembrança. Ele acompanhou os primeiros passos do que hoje é algo natural, como caminhar ou andar de bicicleta. Acompanhou meus primeiros ensinamentos ao volante. Observou, lógico, enquanto eu o consumia como uma louca sem saber que o seu conteúdo seria, atualmente, considerado artigo de luxo que poucos podem ostentar. Falo do Miguel, porque ele observou atentamente sorrisos, choros, discussões e momentos de pânico. O incrível medidor de combustível do fusca branco de um antigo namorado me acompanhou nestes raros momentos da vida que acabei de relatar. E são esses momentos que hoje retornam à minha mente como algo que acabou de acontecer. Na realidade, vejo o tempo como algo sempre presente. Então, o Miguel me remeteu a outras situações que, hoje, vejo que foram essenciais para a construção de muitas coisas.
Com 17 anos não pensamos em absolutamente nada da vida de adulto. Não há medidas para nada. Não há medida para o amor, o desamor, os encontros, desencontros, as brigas, as reconciliações, as alegrias, as tristezas, a felicidade ou as mágoas. Simplesmente, somos. Deixamos de ser quando as medidas tomam conta do nosso eu. Tudo passa a ter um limite, senão pelo seu bom senso, outrora pelo bom senso que você passa a enxergar no outro, aquilo que chamamos de padrões estipulados pela sociedade. Com o Miguel não havia medidas. E o tempo dele é um tempo que merece boas recordações. Afinal, ele me viu crescer, amadurecer e acompanhou uma ínfima, porém uma importante fase da minha vida que começava a ser traçada a partir dali.
Era no Miguel que eu via, já naquele tempo, o então namorado implorar para ele agüentar mais um pouco. E surgiam aquelas brincadeiras do tipo: “Vamos ficar no prego!”. Imaginem, um fusca que, na época, se colocassem R$ 3 de combustível no coitado ele rodava a cidade toda e voltava com sobra de gasolina. Lógico, tudo escondido da então sogra, que vigiava a quilometragem do carro querido. Era uma festa, que se tornava maior quando o medidor da quilometragem era, espertamente, desligado. Confissões que só agora a ex-futura sogra ficará a par. Isso, se ela chegar a lê-las algum dia.
Não devo nada disso ao Miguel, lógico. Só devo a ele as gargalhadas das lembranças de um tempo bom e as recordações de uma adolescência vivida em sua totalidade. Não sei por quais caminhos o Miguel anda, mas vale a recordação de um simples medidor de combustível de um fusca gerar tantos brilhos nos olhos.


Manaus-AM, 22/07/2004

'Cara-de-pau'

Se tem uma coisa que o jornalismo me ensinou foi a ser um pouco ‘cara-de-pau’ nessa vida. Às vezes, é preciso. Não somente isso, necessário. Não dá para ter vergonha de fazer uma pergunta ou pedir para o entrevistado soletrar o nome, por exemplo. Essa falta de timidez tive que aprender na ‘marra’. Não é fácil se livrar de certas atitudes, ‘limpar’ a cara e falar com certa naturalidade algo que, naturalmente, causaria rubor à face. É assim na profissão e estou adotando isso no dia-a-dia.
Certa vez, me vi enrascada. Olhava para o relógio, os ponteiros passando. Em menos de 20 minutos eu teria que enfrentar filas em dois bancos. Lembrei-me disso quando já estava há cinco minutos na fila de um dos bancos. Naquela ocasião, o tempo era ‘apertado’, porque ainda precisaria chegar pontualmente ao trabalho. Sabe como é, chefe nenhum gosta de ver o subordinado chegando atrasado. O relógio estava contra mim, então. Tive que tomar uma atitude. Ou eu desistia de pagar as contas (e acumulava juros e multas) para chegar pontualmente ao trabalho ou... é... isso mesmo. Resolvi que ficaria com a segunda opção. Afinal, dinheiro não dá em árvore (se desse, eu também estaria ferrada porque não tenho árvore em casa!) e as contas estão aí para serem pagas mesmo. Não tinha jeito. Tive que tomar uma atitude de mulher desesperada!
Olhei para trás e gentilmente pedi ao senhor que estava também na fila: o senhor pode guardar meu lugar na fila enquanto vou ao meu carro, rapidamente? Ele respondeu: guardo sim. Diante disso, vi-me em outra situação: pensar em que parte daquele bairro haveria um banco próximo onde eu poderia fazer o que pretendia. Andei dois quarteirões, subindo e descendo avenida, embaixo de um sol escaldante, até encontrar o bendito banco. Voltei 10 minutos depois ao primeiro banco.
A fila já tinha ‘andado’ bastante e faltavam apenas duas pessoas serem atendidas, que estavam à frente do senhor o qual pedi a gentileza. ‘Envernizei’ a cara, escondi a dor pela bolha no pé (afinal, tive que apressar o passo) e segui adiante. Passei por todos na fila e, olhando para o senhor, disse: oi, voltei! E ele: pensei que a moça tinha desistido. Respondi: desculpe, é que deixei meu carro muito distante do banco. Mais cinco minutos e fui atendida.
Saí de lá com o ‘dever’ cumprido e ‘cara-de-pau’ latejando. Bem que o relógio poderia ser maior (quem sabe os ponteiros demorariam mais a dar a voltinha no relógio). Essa falta de tempo maltrata! E ‘óleo de peroba’ também ajuda de vez em quando. Coisas da vida. Por isso que eu digo: vivendo, aprendendo e passando adiante. ‘Cara-de-pau’, minha gente!

Manaus-AM, 01/11/07