sábado, 1 de março de 2008

'Cara-de-pau'

Se tem uma coisa que o jornalismo me ensinou foi a ser um pouco ‘cara-de-pau’ nessa vida. Às vezes, é preciso. Não somente isso, necessário. Não dá para ter vergonha de fazer uma pergunta ou pedir para o entrevistado soletrar o nome, por exemplo. Essa falta de timidez tive que aprender na ‘marra’. Não é fácil se livrar de certas atitudes, ‘limpar’ a cara e falar com certa naturalidade algo que, naturalmente, causaria rubor à face. É assim na profissão e estou adotando isso no dia-a-dia.
Certa vez, me vi enrascada. Olhava para o relógio, os ponteiros passando. Em menos de 20 minutos eu teria que enfrentar filas em dois bancos. Lembrei-me disso quando já estava há cinco minutos na fila de um dos bancos. Naquela ocasião, o tempo era ‘apertado’, porque ainda precisaria chegar pontualmente ao trabalho. Sabe como é, chefe nenhum gosta de ver o subordinado chegando atrasado. O relógio estava contra mim, então. Tive que tomar uma atitude. Ou eu desistia de pagar as contas (e acumulava juros e multas) para chegar pontualmente ao trabalho ou... é... isso mesmo. Resolvi que ficaria com a segunda opção. Afinal, dinheiro não dá em árvore (se desse, eu também estaria ferrada porque não tenho árvore em casa!) e as contas estão aí para serem pagas mesmo. Não tinha jeito. Tive que tomar uma atitude de mulher desesperada!
Olhei para trás e gentilmente pedi ao senhor que estava também na fila: o senhor pode guardar meu lugar na fila enquanto vou ao meu carro, rapidamente? Ele respondeu: guardo sim. Diante disso, vi-me em outra situação: pensar em que parte daquele bairro haveria um banco próximo onde eu poderia fazer o que pretendia. Andei dois quarteirões, subindo e descendo avenida, embaixo de um sol escaldante, até encontrar o bendito banco. Voltei 10 minutos depois ao primeiro banco.
A fila já tinha ‘andado’ bastante e faltavam apenas duas pessoas serem atendidas, que estavam à frente do senhor o qual pedi a gentileza. ‘Envernizei’ a cara, escondi a dor pela bolha no pé (afinal, tive que apressar o passo) e segui adiante. Passei por todos na fila e, olhando para o senhor, disse: oi, voltei! E ele: pensei que a moça tinha desistido. Respondi: desculpe, é que deixei meu carro muito distante do banco. Mais cinco minutos e fui atendida.
Saí de lá com o ‘dever’ cumprido e ‘cara-de-pau’ latejando. Bem que o relógio poderia ser maior (quem sabe os ponteiros demorariam mais a dar a voltinha no relógio). Essa falta de tempo maltrata! E ‘óleo de peroba’ também ajuda de vez em quando. Coisas da vida. Por isso que eu digo: vivendo, aprendendo e passando adiante. ‘Cara-de-pau’, minha gente!

Manaus-AM, 01/11/07

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