Dia de domingo. Aroma de café saído da garrafa térmica, leite, pão quente e manteiga à mesa, barulho de chuva no telhado de zinco. Manhã clássica de domingo na casa dos avós. Vovó era a primeira a levantar. Ia cedo à taberna comprar pão. Voltava, preparava o café, que tradicionalmente era coado no coador antigo, daquele que deixa o café ainda mais gostoso. Digo ‘ainda’, porque café de vó é sempre bom, né? Vovô sentava-se e logo colocava uma das pernas na quina da mesa do café da manhã. Era sua marca registrada.
Naquele tempo, nada de tecnologia. Tudo muito simples e muito gostoso de se viver. Paredes de madeira, banheiro independente da casa, nada de telefones celulares e televisão com controle remoto. Penicos embaixo de cada cama da casa (e eram muitas camas, dada a quantidade de filhos e netos que não saíam dali), mosquiteiros e álcool sempre à mão para espantar a dor das mordidas das jiquitaias (todas elas eram ninjas, porque nunca consegui vê-las). Havia a horta no quintal da casa, o jambeiro ao lado e o igarapé ao fundo. Toda vez que chovia e o igarapé transbordava, olhares atentos para sanguessugas que boiavam na água.
Mas o melhor mesmo eram as pessoas. Primos (de todas as idades), tios, avô e avó. Uma salada só. Pessoas indo e vindo sempre. Cozinha, lugar de um bom papo, sempre lotada. Ah! E tinha o filtro de barro, geladeira antiga e armário velho de ferro. Objetos não apenas de decoração, mas que denunciavam também a longevidade daquela união.
Na hora de ir embora, vovô chegava próximo a nós, enfiava a mão no bolso da calça de linho surrada, tirava um bolo de dinheiro e, escondido, distribuía uma nota de cinco cruzeiros a cada um dos netos. O melhor de tudo não era receber aquele dinheiro, mas o sorriso que acompanhava aquela forma de abraço e carinho. Virávamos, entrávamos no fusquinha e ficávamos olhando pela janela aquela casinha de madeira se distanciar dos nossos olhos. Sabíamos que dali a sete dias isso tudo se repetiria. Festa completa com sabor de convivência e amor.
Domingo tem o típico sabor de família, barulho de chuva no telhado de zinco, café quentinho, penicos embaixo de camas, jiquitaias ninjas e o calor daquele sorriso. Vovô se foi e ficou um gosto de ‘quero mais’. Quero mais da convivência, quero mais daquele carinho, quero mais daquelas conversas, quero mais daquelas ‘bençãos’, quero mais daquele calor humano, quero mais daquela simplicidade. Quero mais um pouco do meu avô, já que o tempo não perdoa e um dia leva todos nós. Domingo. Ah, domingo! Espero o próximo domingo com meu avô. Agora já não serão mais sete dias. Mas, com certeza, haverá outros domingos.
Manaus, 21/03/08.
sexta-feira, 21 de março de 2008
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