Ele fazia sempre o mesmo ritual antes de sair de casa: três vezes o sinal da cruz e uma batidinha com a mão na porta de madeira maciça. Tudo isso para que o azar desviasse e passasse longe dele. Por quê? Simplesmente, porque ele tinha o “dom” de atrair loucos, presenciar e participar de cenas bizarras.
Era uma sexta-feira. Sexta-feira 13. Naquele dia, pediu o carro da irmã mais velha para sair com amigos. Um Palio com poucos meses de uso. Antes de sair de casa, o ritual de sempre, reforçado por um pedido em voz alta de: “que nada de ruim aconteça”. A visão da irmã, histérica, gritando, fez com que ele reforçasse de novo o pedido, agora em pensamento e uma figa na mão: “que nada de ruim aconteça”. E, assim, ele saiu. Guiou o carro da irmã até o local de trabalho de um dos amigos, onde toda a turma estava reunida.
Todos preparados para ir à balada, animação total, e ele resolveu, de supetão, que não seria uma boa noite para baladas. Sabe como é, sexta-feira 13, carro emprestado da irmã, bebida e turma reunida. Era tudo perfeito demais. Tão perfeito, que alguma coisa, com certeza, iria acontecer. Assim, despediu-se de todos e tomou o caminho de casa. Tirou o carro do estacionamento, desceu a ladeira e chegou ao cruzamento. O caminho mais viável requeria uma conversão proibida à esquerda. Nesse momento, pensou no próprio bolso e no quanto economizaria de combustível.
É como diz a Lei de Murphy: se alguma coisa pode dar errado, vai dar errado. Ao fazer a conversão, não atentou para o fluxo de carros. Resultado: deu errado. Um Fusca branco veio na direção dele quando ele ainda estava no meio da rua. Sexta-feira 13, carro emprestado da irmã histérica, conversão proibida... É. A Lei de Murphy é impiedosa. Palio e Fusca se chocaram no meio da rua e cada carro ficou atravessado em uma das mãos da rua.
Os carros começaram a parar, porque a rua ficou interditada nos dois sentidos. Ele, o ‘azarado’, ficou nervoso, ligou para a irmã, que, naturalmente, ficou histérica e soltou berros ao telefone. Enquanto isso, o motorista do Fusca estava calmo. Mas o trânsito ficou parado. A extensão da fila de carros aumentava a cada segundo. Para completar a noite, aparece um homem que começa a orientar os motoristas ‘presos’ no engarrafamento e a controlar o fluxo dos carros. No meio da euforia da situação, o ‘azarado’ se dá conta: era um médico conhecido na cidade pela fama de realizar cirurgias abortivas. O que mais faltava naquela noite? Mais nada. No fim das contas, a perícia foi chamada, os carros foram guinchados e o seguro acionado. Alívio momentâneo.
Meses depois, já com o próprio carro, pago num duradouro consórcio, ele segue por uma movimentada avenida da cidade, quando vê uma figura estranha tentar atravessar. Era uma mulher nua. Após a freada brusca, a mulher se agacha, faz xixi em frente ao carro dele, levanta, sorri, mesmo sem um resquício de dentes, e dá um tchauzinho.
Dias depois, ignorando completamente a Lei de Murphy, ele visita uma amiga e estaciona o carro na frente da casa da jovem. Meia hora depois, ouve um estrondo. Quis não acreditar, mas já sabia que a única possibilidade de alguma coisa dar errada tinha acontecido. Incrédulo, foi até a rua ver para crer. De um outro carro, sai um homem visivelmente alcoolizado, apontando para as pessoas e dizendo: quem estacionou esse carro no meio da rua? Sim, o tal homem fez o favor de, em alta velocidade, bater no carro do ‘azarado’. Pior, havia outro carro estacionado na frente do carro dele. O coitado ficou sanfonado. O único pensamento foi: “o que eu fiz para merecer isso?”.
Como parte das ações de mudanças, resolveu três coisas: acabar com o ritual antes de sair de casa; nunca mais emprestar o carro da irmã; e comprar uma bicicleta para usar nos dias em que o carro for batido. Até porque, da maldição de atrair loucos e participar de cenas bizarras, ele não vai se livrar nunca.
Manaus/AM, 08/06/07.
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