terça-feira, 18 de março de 2008

'Lincença internética'

A tal da licença poética pode ser traduzida, atualmente, para ‘licença internética’. Ora, vemos, hoje, um show de monstruosidades na língua portuguesa, principalmente, na rede mundial de computadores. Além dos milhares de analfabetos brasileiros, a popularização da internet cria outro nível de analfabetos. Ou diria, pessoas sem o total senso da língua materna.

Para tudo no Brasil cria-se uma licença. Os publicitários têm uma licença para utilizar em suas peças, os poetas, também. No Direito, advogados, juízes e desembargadores não utilizam somente palavras difíceis, como também o latim, para ficar complicada mesmo a compreensão de qualquer ser menos culto. Entre outras licenças nas demais profissões, da qual não me excluo. A internet não poderia ficar de fora das exceções tupiniquins.

Entre as palavras mais comumente modificadas está a “não”, usualmente trocada por “naum”. É tão difícil assim digitar o til? Ou será mais fácil escrever a palavra na forma fonética? Entre as tantas bizarrices na ortografia, existe a de trocar o “c” pelo “x”. Sem contar nas abreviações e nas palavras escritas literalmente na forma falada. “Você” virou “voxe”, “vc”, etc... Amigo virou “miguxo” e “por que” (e suas variações) virou “pq”. Trocou-se o “qu” pelo “k” e “quem” virou “kem”. Algumas expressões foram modificadas, como “não tinha”, que se transformou em “num tinha”, a exemplo de algumas frases utilizadas no mundo virtual. Não é raro encontrar pessoas que desaprenderam a forma correta de grafia das palavras.

O que vemos é uma geração que nasce com ‘a mão no mouse’, sendo desecudada em sua própria língua materna. E a culpa não é da internet, óbvio. Afinal, internet é um meio, tanto de comunicação, como de auxílio, uma ferramenta. A culpa também não é das escolas, que incluem milhares de aulas de língua portuguesa em seus quadros. O que será que está acontecendo, então?

A verdade, se é que ela existe, é que o ‘português brasileiro’ não é seguido à risca por ninguém. Tornou-se um martírio popular, nas provas de vestibular, concursos e na atuação profissional, independente da área em que se atue. Fala-se tanto em uma nova regra igualitária a todos os países de língua portuguesa. A extinção do trema e de acentos em determinadas palavras não vai mudar a realidade brasileira... A realidade da falta de acesso à educação, coisa tão antiga no País, e a realidade do desaprendizado difundido nos programas de conversa, chats e sites de relacionamento.

Não defendo o uso correto e expresso das palavras na internet, até porque, quem nunca abreviou uma palavra ou mudou uma grafia durante uma conversa na internet que atire a primeira pedra. Sou a favor da disseminação correta do português e que as pessoas saibam falar tão corretamente quanto aprenderam (?) nos bancos da escola a escrever.

Manaus, 28/02/2008.

0 comentários: