A essas alturas, o Miguel já deve ter partido para melhor. Ou não. O que acontece é que lembrei dele. Uma lembrança cheia de ternura e carinho, muito mais pelos momentos do que por outros motivos. Miguel presenciou alguns desses raros momentos que não deveriam (ou de fato deveriam!) ser apagados da lembrança. Ele acompanhou os primeiros passos do que hoje é algo natural, como caminhar ou andar de bicicleta. Acompanhou meus primeiros ensinamentos ao volante. Observou, lógico, enquanto eu o consumia como uma louca sem saber que o seu conteúdo seria, atualmente, considerado artigo de luxo que poucos podem ostentar. Falo do Miguel, porque ele observou atentamente sorrisos, choros, discussões e momentos de pânico. O incrível medidor de combustível do fusca branco de um antigo namorado me acompanhou nestes raros momentos da vida que acabei de relatar. E são esses momentos que hoje retornam à minha mente como algo que acabou de acontecer. Na realidade, vejo o tempo como algo sempre presente. Então, o Miguel me remeteu a outras situações que, hoje, vejo que foram essenciais para a construção de muitas coisas.
Com 17 anos não pensamos em absolutamente nada da vida de adulto. Não há medidas para nada. Não há medida para o amor, o desamor, os encontros, desencontros, as brigas, as reconciliações, as alegrias, as tristezas, a felicidade ou as mágoas. Simplesmente, somos. Deixamos de ser quando as medidas tomam conta do nosso eu. Tudo passa a ter um limite, senão pelo seu bom senso, outrora pelo bom senso que você passa a enxergar no outro, aquilo que chamamos de padrões estipulados pela sociedade. Com o Miguel não havia medidas. E o tempo dele é um tempo que merece boas recordações. Afinal, ele me viu crescer, amadurecer e acompanhou uma ínfima, porém uma importante fase da minha vida que começava a ser traçada a partir dali.
Era no Miguel que eu via, já naquele tempo, o então namorado implorar para ele agüentar mais um pouco. E surgiam aquelas brincadeiras do tipo: “Vamos ficar no prego!”. Imaginem, um fusca que, na época, se colocassem R$ 3 de combustível no coitado ele rodava a cidade toda e voltava com sobra de gasolina. Lógico, tudo escondido da então sogra, que vigiava a quilometragem do carro querido. Era uma festa, que se tornava maior quando o medidor da quilometragem era, espertamente, desligado. Confissões que só agora a ex-futura sogra ficará a par. Isso, se ela chegar a lê-las algum dia.
Não devo nada disso ao Miguel, lógico. Só devo a ele as gargalhadas das lembranças de um tempo bom e as recordações de uma adolescência vivida em sua totalidade. Não sei por quais caminhos o Miguel anda, mas vale a recordação de um simples medidor de combustível de um fusca gerar tantos brilhos nos olhos.
Manaus-AM, 22/07/2004
sábado, 1 de março de 2008
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