quarta-feira, 5 de março de 2008

Os conceitos mudam

Conceitos mudam a todo instante. Foi assim com João. Um adolescente direito, freqüentador assíduo das missas de domingo, não bebia, não fumava, não dançava e não traía suas namoradinhas. Aos 18 anos, João apaixonou-se por uma garota dois anos mais nova. E ela era assim: gostava de sair, de beber, de dançar, de conviver com os muitos amigos que tinha. João não conseguia se encaixar nesse ritmo. Brigava com a namorada constantemente. “Para quê beber? Eu vi meu tio morrer de cirrose!!!”, dizia sempre. João era comportado. E não sabia como conciliar a paixão com os gostos da namorada. Então, começou a fazer o que todo homem num determinado momento do relacionamento faz: irritar a namorada. Como? Quando saíam juntos, João dançava com as amigas da namorada, mas não com ela, ensaiava bebericar uns goles de cerveja com os amigos, mas não com ela... Ela ficava chateada e, apesar de muito apaixonada por João, pensava: “Traio ou não traio?”. Dúvida que logo foi respondida pelos atos. No relacionamento deles não havia sintonia. Ela traiu João, que ficou sabendo.

Entre choros e socos no volante do carro, João rebelou-se. Não agüentou o peso da traição e terminou o namoro. Paixão nenhuma se sustenta depois de descoberta a traição. Até então, João tinha convicção de que, quando se ama uma pessoa, não é necessária mais nenhuma outra. Ele tinha acabado de passar no vestibular, começou a sair com os amigos de faculdade e, de repente, descobriu que tudo aquilo que ele apontava de ruim no comportamento da ex-namorada também achava bom. Começou a beber com amigos, a dançar nas baladas, a “ficar” com várias “amiguinhas” de faculdade e, pouco depois, acabou namorando uma delas. Agora, para João, traição não era mais a pior coisa do mundo. Teve uma namorada com a qual, depois de dois anos, abriu o jogo e disse que a tinha traído com uma amiga em comum. Achou a coisa mais natural do mundo trair e contar para a namorada. O namoro terminou. Mais um motivado por traição.

Dez anos mais tarde, num encontro casual com a ex-namorada de adolescência, João, já casado, revela o que realmente pensa sobre relacionamentos, amor, paixão, fidelidade e traição. “Se fidelidade é ficar somente com uma pessoa, eu não sei ser fiel. Se for amar apenas uma mulher, sou muito fiel. Acho que se bater o tesão por uma mulher que não seja a minha esposa, eu invisto. Porque acho que as pessoas não pertencem a uma outra apenas e, se rolou um desejo, por que não? Eu amo transar com minha mulher, ela me completa e me faz feliz. Mas eu também gosto das outras mulheres”. E completou: “Obrigado pelo que você fez!”.

As pessoas mudam e os conceitos de cada um também. Nesse caso, o de traição, o conceito é individual e democrático. Cada um pensa de um jeito e sempre vai ter alguém para discordar de atitudes, independente de quais sejam. Portanto, trair ou não trair vai ser sempre uma questão polêmica.


Manaus/AM, 20/02/2007.

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