Hoje bateu a saudade. Então, lá vai o texto que nunca publiquei antes e que escrevi para ler na missa de sétimo dia (mas o padre não deixou!).
Saudade dói. Aperta o peito. Mas não há jeito. Vou vivendo...
Nosso herói é imortal. Embora com fraquezas e defeitos, o seu exemplo é imortal. Nagib Bader não passou pela vida à toa. Amou e foi amado. Apaixonou-se. Casou-se. Teve filhos, que lhe deram netos. E tudo o que ele construiu não está sobre fundações de concreto. Está aqui, agora, dando continuidade a tudo o que ele ensinou. Ensinamentos dos quais nos orgulhamos. Esse homem alto, forte, de voz firme, de gesto carinhoso, esse homem nos ensinou que a honestidade vale mais que dinheiro. Ensinou que caráter e dignidade ninguém pode nos tirar ou comprar. Ensinou que ser correto é amar o nosso próximo. Ensinou que ajudar não deve ser só um ato de bondade, mas de humanidade. Esse homem, com suas velhas histórias, ensinou que nessa vida estamos só de passagem e que tudo o que aqui fizermos será contabilizado. Por conta disso, ele mesmo dizia: não faça mal a ninguém. Conselho muito bem ouvido e aprendido por todos nós.
Nosso herói era austero, brincalhão, galanteador, ativo, cheio de saúde. E quem diria? Esse mesmo homem nos deixou assim, de uma hora para outra, sem que pudéssemos supor que ele já havia cumprido sua missão aqui. Olhando para trás, conseguimos compreender o quanto ele construiu. Ele atravessou, com as roupas nas mãos, um rio para pedir a mão da amada em casamento. E olha só no que isso tudo deu. Mais de 60 anos de união. Ele batalhou por cada pedaço de pão para que os filhos tivessem o que comer. Atravessou a floresta, caçou animais, cortou seringueiras, tirou leite de pedra para que estivéssemos aqui hoje celebrando seus quase 86 anos de ensinamentos. Sim, porque não perdemos o marido, o pai, o avô, o bisavô, o amigo. Ganhamos um anjo, que deixou seu exemplo para nós.
Família. Esse homem significa família. Todos os domingos, era certa a reunião de todos. Nem sempre na mais perfeita harmonia, mas estávamos ali, juntos. E quando ele começava a contar a histórias do seringal, dos compadres e comadres, da vivência que até hoje não conseguimos visualizar de como deve ter sido, os olhos dele brilhavam.
Ao contrário do que muitos podem imaginar de uma família de origem árabe, nosso herói era próximo, presente, carinhoso e de gestos muito simples. Simplicidade essa que ele não estampava, ele apenas demonstrava com atitudes cotidianas. Aprendemos com ele que o melhor lugar para uma boa conversa é a cozinha da casa. Aprendemos também a não fechar as portas para ninguém. Era assim que as mais diferentes pessoas chegavam à sua casa, sem bater, sem pedir licença, apenas entrando até a cozinha.
Falo de Nagib Bader como herói não por ele ser inatingível fisicamente, mas por ele significar um exemplo tão forte de vida. Para muitos, ele era o seu Naná, para outros o seu Nagib, o Pai, o Amigo... Para mim, ele era o meu avô querido. Aquele a quem podia tirar dúvidas, conversar, abraçar, falar sobre os mais diversos assuntos e ouvir os mais diversos conselhos.
Um homem cujos valores vão além do acúmulo de riquezas materiais. A educação dos filhos sempre rígida. O convívio com os netos sempre cheio de histórias e alegrias. Era duro quando tinha que ser. Passava sermão, brigava. Ao mesmo tempo, era atencioso, carinhoso e sincero. Mudar a opinião daquele homem era quase impossível. Defendia sua família até as últimas conseqüências. Tudo o que ele construiu ao longo de sua vida está aqui, reunido. Somos todos orgulho dele, tenho certeza. E ele não seria ninguém sem a sua fortaleza, minha avó. Sabemos da importância de um na vida do outro. Não conseguíamos enxergar um sem ver o outro próximo. Nagib e Alzira. Agora, vó, nos restam a força, o amor e a união para continuarmos a vida.
O que sinto agora, e creio que deve ser um pouco do que cada um sente, é a saudade. Dá um vazio no peito chegar àquela casa e não encontrá-lo, não dizer: a benção, vô. E ouvir a resposta: Deus te abençoe, minha filha. Seguido de um abraço, um beijo e aquele calor humano. Ficam as lembranças dele, do homem, do herói, do contador de histórias, do educador, do amigo, marido, pai, avô e bisavô... Do ser humano. Fica o amor que sentimos durante a convivência que tivemos com ele. Fica o exemplo de quem viveu sem ter medo do amanhã, de quem aproveitou cada segundo dessa vida e deixou um legado invisível aos olhos das estatísticas. Deixou sua história, seus ensinamentos, sua devoção pela família. Vô, o senhor continua vivo no meu coração e assim será para sempre, até o dia do nosso reencontro.
Manaus, 22 de setembro de 2007. Sábado. 3h25.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
0 comentários:
Postar um comentário